A culpa é da tecnologia?

Para pediatra, crianças estão confinadas demais em casa e, nas escolas, a era do “conteudismo” diminui o tempo para as interações pessoais

É muito comum ouvirmos que a tecnologia está mudando hábitos humanos, mas será que isso é verdade?

Não há como negar que, após uma grande descoberta tecnológica, nossa vida muda de alguma forma. O domínio do fogo, por exemplo, alterou nossa relação com os alimentos e com as manufaturas, possibilitando uma nova era e abrindo espaço para a sociedade moderna. A invenção da roda diminuiu as distâncias geográficas e foi fundamental para chegarmos à era da globalização.

São dois exemplos do passado que foram fundamentais para moldarmos o mundo em que vivemos hoje e isso não significa que paramos de criar novas tecnologias. Pelo contrário, estamos em pleno olho do furação de um tempo novo: a era digital, que vem desmoronando os limites entre os espaços reais e virtuais e transformando praticamente todas as nossas ações no planeta.

A educação (a que se tem no lar e também na escola) é uma área muito impactada pela tecnologia digital, tanto no que ela acrescenta de bom quanto no que traz de riscos. E, voltando à questão do texto, vale perguntar: os computadores, tablets, celulares e afins estão mudando a forma de as crianças e jovens entender o mundo e agir?

A resposta “sim” é muito comum para esta pergunta, mas vale uma reflexão. Será que a tecnologia está mudando hábitos ou seria a forma como a utilizamos? A segunda premissa parece mais verdadeira quando lembramos, por exemplo, que a internet pode servir tanto para aproximar pessoas que estão distantes geograficamente quanto distanciar os que vivem sob o mesmo teto. A diferença entre um caso e outro é a forma como se utiliza a rede mundial de computadores.

O pediatra Daniel Becker fala de um problema muito interessante ligado a essa questão, em entrevista dada à Carta Educação. Becker aborda o fato de as crianças estarem conectadas em excesso à internet, vivendo muito mais uma vida virtual do que real. E ele atribui esse fenômeno não à tecnologia em si, mas ao fato de as crianças, hoje, estarem presas demais dentro de suas casas e pelo fato de as escolas estarem mais focadas no ensino de conteúdos.

“Na verdade, as crianças migram para a tecnologia porque estão confinadas em casa. As escolas têm cada vez mais sala de aula, conteudismo. Com a energia explosiva que as crianças têm, o único jeito de domar alguém confinado é oferecendo distração permanente e, claro, aquela oferecida pelos telefones é irresistível”, diz o pediatra.

Becker faz uma crítica ao modelo social vigente hoje, apontando também para outro fenômeno muito comum: a ida aos shoppings como se fossem os únicos lugares de lazer em uma cidade, familiarizando as crianças, desde muito cedo, a um ambiente comercial, de apelo consumista, acirrando um dos grandes problemas do mundo contemporâneo: a transformação das crianças em consumidores precoces. 

“O shopping virou o programa de fim de semana da família brasileira. Os pais levam as crianças para ficar vendo vitrines e pessoas comprando e comprando, fazendo disso o grande objetivo da vida delas”, alerta Becker. Soma-se a esse problema o fato de muitas crianças, desde cedo, terem “agendas cheias” de cursos extras, por exemplo, tal qual um adulto, sobrando pouco tempo para o brincar.

Para o pediatra, é importante, diante deste cenário, detectar as fragilidades no trato com as crianças, encontrando a solução mais factível diante da realidade de cada família. Becker também diz ser importante não apontar apenas os pais, as mães, os responsáveis (e também os professores) como únicos “culpados”, mas entender a educação como resultante das relações sociais (ou seja, um contexto maior).

É claro que, diante das demandas profissionais dos pais e das mães de hoje, fica mais difícil achar tempo para dar aos filhos as brincadeiras em espaços abertos (que muitas vezes também são menos seguros). Também diante dos processos seletivos das universidades e do próprio mercado de trabalho, é preciso investir em um conteúdo completo no currículo da escola. Porém, é importante lembrar que, a despeito de todas as necessidades competitivas do mundo moderno e das “facilidades” criadas pelas máquinas, continuamos humanos e necessitamos das relações reais, do afeto, da troca e do convívio com nossa própria natureza, junto ao meio ambiente.

texto: Marcos Brogna | foto: Pixabay

 

PARA REFLETIR

Além dos shoppings, há os parques, os museus, as praças, os teatros, os cinemas, os centros de convivência, os espaços poliesportivos…

Além do conteúdo, há a feira cultural, as feiras de trocas, a interação com a comunidade no entorno da escola, as brincadeiras, as visitas aos espaços da cidade…