E eis que, em pleno século 21, estamos diante de uma velha prática humana: a construção de gigantescos muros. Donald Trump, presidente recém-empossado nos Estados Unidos, anunciou que cumprirá sua promessa de campanha e levantará uma muralha na divisa com o México, e isso nos remete a outra divisória de concreto que era o símbolo máximo da segregação humana: o muro de Berlim, construído em 1961 e derrubado em 1989.

   Mesmo depois da guerra fria e do contexto de mundo dividido pela corrida armamentista, e após tantos avanços científicos e possibilidades de conexões digitais, a pergunta que surge é: a saída é concretar divisas e separar ainda mais os povos?

   O mundo vive um momento peculiar. Ao mesmo tempo em que crescem, de forma extraordinária, as conquistas de direitos por grupos que já sofreram muito preconceito ao longo da história, a intolerância ainda se mostra viva e atuante. Esta parece ser, aliás, uma resistência da parcela da sociedade que ainda não entendeu que, em um mundo com mais de 7 bilhões de humanos, todos diferentes, e com o planeta ardendo por conta de nossa ação destrutiva, o desafio é aprender a conviver com sustentabilidade e de forma mais colaborativa, respeitando todas as vidas. Por isso, a educação se torna ainda mais importante, pois tem um papel fundamental para se aprender a conhecer, a fazer, a ser e a CONVIVER (lembrando os pilares da Unesco).

   Francis Wolff, no livro “Civilização e Barbárie”, nos ajuda a entender a complexa realidade que vivemos. Ele pergunta quem seriam os “bárbaros” nos dias de hoje, lembrando que na antiga Roma eram os não-romanos, assim como na antiga Grécia eram os não-gregos (ou seja, os estrangeiros). Wolff nos convida a enxergar um outro tipo de bárbaro hoje: quem quer eliminar os que são diferentes, ou seja, a barbárie está na incapacidade de respeitar a diversidade humana. Isso significa que, para o autor, o desafio da civilização nos tempos atuais se baseia na convivência – e é para isso que precisamos educar.

   A intolerância que hoje grita nas redes sociais não é novidade na história. A humanidade já queimou cientistas, artistas, mulheres independentes e pensadores críticos na fogueira da inquisição, chamando-os de “bruxos”; já sequestrou, acorrentou e escravizou negros; já criou campos de concentração; já relegou (e, em tantos casos, ainda relega) à mulher o papel de serviçal do homem; já colocou deficientes em circos de aberrações para gerar riso. Não há mais inquisição como havia nos tempos medievais nem escravidão tal qual nos tempos das grandes navegações, nem holocausto como no nazismo, mas, ainda hoje, preconceitos, tabus e dogmas continuam a segregar por meio de muros simbólicos que separam pessoas por causa de sua cultura, sua etnia, sua crença, sua sexualidade (e Trump soma a isso a volta ao passado com muros físicos).

   Barack Obama, em seu discurso de despedida da presidência dos EUA, nos trouxe uma reflexão interessante sobre a intolerância das redes digitais. Ele disse que a nova tecnologia tem contribuído para que as pessoas se fechem em bolhas em vez de aproveitar o caráter múltiplo das conexões, e essas bolhas geram a cegueira da “verdade absoluta”. “Cada vez mais, ficamos tão seguros em nossas bolhas que aceitamos apenas informações, verdadeiras ou não, que se encaixam em nossas opiniões, ao invés de basear nossas opiniões nas evidências que estão lá fora”, disse o ex-presidente.

   É salutar, portanto, que educação caminhe no sentido de estourar tais bolhas, fornecendo repertório plural e dialogado para gerar senso crítico, exercitando o contraponto, praticando a dialética, ajudando a enxergar as muitas formas de olhar um fato. Paulo Freire, antes mesmo da era digital, já nos ensinava a pensar nesse sentido, quando escreveu, em “Pedagogia do Oprimido”, que “A liberdade, que é uma conquista e não uma doação, exige permanente busca. Busca que só existe no ato responsável de quem a faz. Ninguém tem liberdade para ser livre. Pelo contrário: luta por ela precisamente porque não a tem. Ninguém liberta ninguém, ninguém se liberta sozinho, as pessoas se libertam em comunhão.”

   Ou seja, independente da tecnologia do momento, a boa educação forma pessoas capazes de utilizar todas as ferramentas com autonomia. Hoje, há meios incríveis para espalharmos mensagens que inspirem a construção de um mundo melhor, mas precisamos aprender a usá-los (e isso se ensina também em salas de aula e além dos muros das escolas, em vários espaços onde se pode educar para transformar).

   No momento em que se levantam vozes pela construção de muros, é importante que possamos acreditar na capacidade de buscar outro caminho: as pontes. Isso porque os muros separam, enquanto as pontes unem; os muros impedem o diálogo, enquanto as pontes o possibilitam; os muros transformam as diferenças em ódio, enquanto as pontes nos ajudam a aprender com o outro, crescendo enquanto humanos.  Essas pontes podem, aliás, começar a ser erguidas no mesmo espaço em que há os ruídos intolerantes das redes sociais, estimulando um fenômeno que o professor Gil Giardelli, autor de “Você é o que você compartilha”, chama de O2O (On to Off), ou seja, o fenômeno de transformar o virtual em ações reais. Isso pode ter grandes resultados no trabalho docente, afinal, tanto os professores quanto a própria escola (e os alunos, mais suas famílias) estão conectados nessas redes, assim como se encontram presencialmente quase todos os dias.

    Eduquemos, pois, para a construção de pontes que liguem pessoas diferentes; que nos reconectem com a natureza, que nos faça mais solidários e altruístas; que nos possibilite o uso do conhecimento para a viabilização de um mundo verdadeiramente melhor. Você pode, professor. Aliás, mais que isso: você é fundamental nesse processo!

 

texto, atividades, produção desta news: Marcos Brogna | Imagem: Pixabay

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS DESTE TEXTO
FRAIMAN, Leo. Como Ensinar Bem. OPEE Editora. São Paulo, 2015.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Editora Paz e Terra. São Paulo, 1996.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da tolerância. Organização e notas: Ana Maria Araújo Freire. Paz e Terra. São Paulo, 2014. 
GIARDELLI, Gil. Você é o que você compartilha. Editora Gente. São Paulo, 2012.
NOVAES, Adauto (Org). Civilização e barbárie. Cia das Letras. São Paulo, 2004.

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O QUE A OPEE TEM A VER COM ISSO?

Já no primeiro livro da coleção, voltado para a Educação Infantil, a OPEE já aborda a convivência como mote principal. E em toda a obra, tanto no Ensino Fundamental quanto no Médio, são abordadas questões ligadas ao desenvolvimento do respeito a si e ao outro. O autoconhecimento, presente em todos os livros, é uma ferramenta que consideramos importante para que o aluno aprenda a se conhecer e, entendendo melhor sobre si mesmo, possa entender mais sobre e respeitar o outro. A inteligência emocional, trabalhada em todos os anos, é uma forma de ajudar no desenvolvimento do autocontrole, cada vez mais importante diante das demandas de um mundo superpovoado e dinâmico. Em toda a coleção, trabalhamos o entendimento e a prática dos valores, assim como ressaltamos a atividade ética como imprescindível para a formação humana e profissional. A OPEE frisa, sempre, que o importante não é formar o aluno melhor do mundo e sim o melhor PARA o mundo. Também em obras paradidáticas, a OPEE salienta questões ligadas à construção de um mundo mais plural e fraterno.

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